A chuva batia violentamente na janela e parecia que não haveria amanhã. Parecia que tudo acabava ali e naquele momento e que não havia maneira de escapar. Teria de aproveitar esse tempo para meditar na minha vida. Meditar sobre as minhas vitórias e derrotas. Pensar e orgulhar-me dos meus amores e amizades, passados e presentes. Aproveitar para pensar na minha família: na injustiça de eu não poder escolher com quem ficar sem ter nenhuma consequência; no amor que sinto pelos meus irmão que estão sempre ao meu lado apesar das suas tenras idades, que nem sempre permitem que eles percebam tudo o que se passa a sua volta, mas que estão sempre junto a mim independentemente de tudo. Pensar na minha melhor amiga: na injustiça da sua partida, das saudades que sinto dela e da ânsia que tenho pelo seu regresso.
Senti um arrepio devido à corrente de ar que circulava pelo quarto. Vesti um casaco e sentei-me confortavelmente na cama enquanto olhava para as fotos colocadas na parede e no armário. Recordações sem fim... Olhei mais atentamente e fixei o olhar e apenas uma delas: uma foto antiga, de quando eu tinha 5 ou 6 anos e estava no cais a sorrir enquanto segurava o leme. Dos muitos dias felizes que me lembro da minha infância, creio que este é o que me lembro menos. Quando penso nele e tento que as memórias me venham à cabeça apenas me consigo lembrar de estar no barco um pouco assustada, por ser a 1ª vez que andava de barco, junto da minha mãe enquanto ela me sussurrava levemente ao ouvido um "Vai tudo correr bem, não te preocupes". Lembro-me de todos os sorrisos sem razão e da gargalhadas altas e verdadeiras dadas por todos os que estavam presentes naquele dia. E agora gostava que fosse assim: gostava que agora me divertisse e aproveitasse para no futuro apenas me lembrar dos momentos em que fui feliz sem me lembrar da razão porque o fui. Mas a realidade não torna isso possível. Parece que a cada dia que passa, eu vejo o lado mais negativo da minha vida...
Depois de estar algum tempo a pensar, levantei-me da cama, arranquei violentamente a foto da parede e rasguei-a. Finalmente tinha percebido o motivo de apenas conseguir ver o lado mais negativo da minha vida:
EU ESTAVA DEMASIADO AGARRADA AO PASSADO! Estava agarrada ás memórias que me faziam sentir um calor, uma espécie de felicidade confortável e estável. Estava agarrada aquilo que sentia que não me poderia ser tirado porque estava na minha mente...
Livrei-me de tudo o que pertencia ao meu passado, até aquilo que era apenas de alguns meses atrás, e colei uma foto minha tirada no dia antes a sorrir, com esperança que no futuro pudesse colocar lá muitas mais recordações felizes, e quando olhar para as que naquela altura serão do passado pensar: "Eu era feliz, mas agora também o sou"...
A chuva parou e eu saí do quarto, com a ideia de que nunca iria olhar para o passado da mesma forma...